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  • Francisco Capelo

A Verdade da Mentira

Atualizado: Mar 24



Bom, o assunto é sério e o assunto é vasto. Vamos por partes.


As leiloeiras têm o negócio de sonho: revendem bens caríssimos que valorizam a uma taxa de inflacção inacreditável, num mercado ávido por obras de arte moderna e contemporânea. São intermediários que enriquecem com comissões generosas, e ainda por cima hoje em dia a cada novo leilão todos os anteriores recordes são pulverizados. Portanto, 5% de 100 milhões é bem melhor que 15% de 1 milhão - matemática simples, fácil cálculo, dinheiro a render. E estas pessoas têm gostos caros, ok, mas são seres simples, mesmo muuuuito simples.


Mas, o problema começa aqui mesmo: se criaram procura – ou melhor, se essa procura já existe e é espicaçada por um esquema de marketing muito competente – têm de assegurar a mercadoria nas prateleiras no momento seguinte; ou seja, há que encontrar suficientes telas dos autores certos de pessoas que queiram vender pelo preço o mais alto possível.


Falar a linguagem do dinheiro dá muito jeito nestes meandros: perde-se menos tempo assim. Onde se vende em hasta pública arte, quem a fez - o artista - está claramente a mais. Leiam o que diz Sarah Thornton sobre o que dizem os galeristas aos seus artistas nas feiras de Arte estilo Basel e vão entender. Estes Tempo$ não são para lirismos. Nada de Vieira da Silva, tudo de Trump.


Este mercado é milionário, sim, mas baseia-se – como tudo nesta vida – na relação procura/ oferta. E a oferta por vezes é escassa, para tanta procura de yuppies recém chegados ao mundo da arte em busca da promoção social e estatuto que pinturas de autores célebres proporcionam no imediato. E isso - muita procura e pouca oferta - vai fazer subir os preços em flecha, como é óbvio.



Vamos agora ver a questão de um outro ponto de vista – o ponto de vista das falsificações, um assunto bastante controverso e espinhoso.


Dizia um destes dias um falsificador muito famoso - um dos poucos que foram realmente apanhados em flagrante - em entrevista ao 60 Minutos que, olhando para os mais importantes museus – MUSEUS !! Não galerias ! , Museus, pasme-se… - via muitas das suas falsificações lá expostas, como sendo originais, claro está. E sentia orgulho. Como um pai babado. E quem somos nós, meros apreciadores de arte, para Julgar esse sentimento de orgulho - pergunto eu ? E mais não falava porque claramente sabia muito do que dizia - sabia demais. E quem sabe demais - mais cedo ou mais tarde acaba mal. Ele sabe isso muito bem e deve preferir portanto manter-se calado e discreto.


Ele - apenas ele, mas provavelmente existem muitos como ele - introduziu dezenas e dezenas de obras no mercado - pelo menos - utilizando artifícios e uma narrativa irresistível que incluiu fotografias falsificadas, uma história familiar totalmente inventada e poética, as tintas certas, as telas do período temporal certo compradas em feiras de arte e toda uma mise en céne que era difícil de não acreditar e até fácil de gostar. Foi apanhado porque, e nas suas próprias palavras:


"- Usei uma tinta branca da época errada." !!!!!!


Isto e apenas isto e nada mais do que isto... incrível, não ??


E nós temos um mercado de arte que aparentemente absorve e acredita sem questionar um segundo sequer neste tipo de fábulas de um modo dir-se-ia infantil, que qualquer análise um pouquinho mais racional de um ponto de vista um pouquinho mais externo detectava e desmontava a mil léguas de distância, provavelmente. A história de embalar que lhes contam é exactamente o que eles estão já preparados para aceitar. E os falsários, perante este estado de coisas, têm os horizontes completamente escancarados, tudo é possível, todos os sonhos são realizáveis !! Só é necessário um certo calculismo e conhecimento do mercado e uma previsão psicológica e de comportamentos absolutamente simples.



Deixem-me esclarecer o seguinte - e isto é uma informação relativamente recente, agora de um outro aspecto do mercado:


Neste momento, no mercado americano, os curiosos e talvez um pouco apressados especialistas de arte contemporânea recusam-se – ouviram bem, RECUSAM-SE – a autenticar obras de Jackson Pollock.


Porquê ?


Ora, é fácil de entender: porque os compradores não são totalmente distraídos e quando compreendem que compraram gato por lebre dirigem-se, não à galeria onde adquiriram o Pollock, ou o Klee ou Miró ou Ernst por centenas de milhar de dólares, mas ali mesmo ao lado ao Tribunal e processam o dono da galeria por lhes ter vendido uma falsificação. Quase de certeza que vai acontecer - não é SE - é Quando !


E o dono da galeria depois deve questionar e pedir explicações de uma forma previsivelmente exaltada a quem lhe autenticou aquela obra e.. Voilá ! – estão os dois metidos em sarilhos, num processo jurídico que se vai arrastar durante anos e que poderá implicar uma choruda indemnização ! Ora, como quem autentica sabe onde o rio vai desaguar, prefere... evitar a praia ! É mais ao menos isto, o que se passa, actualmente.


Pois bem, vamos então juntar as duas coisas: a gigantesca procura de telas por parte de endinheirados em princípio pouco conhecedores de arte - e a indústria que vive à custa da venda de obras de artistas famosos.


Eu serei breve, curto e grosso como dizem os nossos amigos brasileiros:


Fico absolutamente perplexo quando leiloeiros experientes, galeristas a sério e curadores de museu não pressentem, lá no seu fundo, que aquilo que têm diante de si são apenas falsificações. Há casos e casos ? - Há. Há cópias mesmo muito, muito perfeitas ? Sim. Também. Muitas vezes não têm provas suficientes, tudo bem, mas lá no seu íntimo devem pelo menos desconfiar - porque um verdadeiro especialista tem essa intuição. E eu refiro este aspecto por uma única razão: parece-me bem - por alguns indícios de análise puramente sociológica, digamos assim - que o mercado está completamente inundado deste tipo de imitações - umas mais dissimuladas e perfeitinhas que as outras, mas ainda assim todas elas falsas como Judas e os seus malditos 30 dinheiros. E eu aqui não estou a falar dos métodos tradicionais de despiste de falsificações, estilo análise da assinatura ou análise do tipo de tinta, ultra violeta, raio X ou o raio que o valha. Estou a falar do olho humano, treinado, experimentado, ligado directamente a um coração, um cérebro e um corpo, pleno de sensibilidade e que já viu centenas de obras de um artista e que portanto sabe de A a Z tudo sobre o seu estilo de pintar, desde a temática à técnica, da forma à cor, da textura à geometria, do formato ao desenho, etc etc etc.


Tenho visto algumas coisas cá pela Tugalândia- por exemplo cópias de Miró e também de alguns pintores portugueses e que agora estacionaram definitivamente em armazéns das autoridades que pelo amor de Deus... como é que aquilo passou no crivo ? Se alguma vez entrou em galerias de arte é inacreditável. Fico completamente pasmo !


Eu, pessoalmente ? Como artista visual que sou, pelos muitos livros que li e vi, em alguns autores específicos eu topava bastante bem essas cenas maradas - diria até de um só relance. Fico completamente embasbacado quando vejo "autenticar" uma obra apenas... pela Assinatura !!! Eu vejo programas de TV em que fazem apenas isso ! Tudo é rápido, tudo é imediato. O estilo pessoal do artista em obras de arte fica um pouco de lado - e não devia.. - mas o tipo de assinatura é analisado até à exaustão. Levam dezenas de exemplos em iPads, comparam, analisam o tipo de tinta e declaram:


- Autêntico !! NEXT !


Quem está a ler este artigo pode não saber isto, mas... diz-se por aí, em alguns documentários de arte, que Salvador Dalí assinou centenas de telas em branco. Pensem. Somem 2 + 2... Compreendem o alcance disto ? É apenas uma história inventada ? Um boato ? Uma infâmia ? Conhecendo o seu gosto por dinheiro não é difícil de acreditar, confesso..


E digam-me agora uma coisa: se ele o fez - o que impede outros pintores célebres de fazerem exactamente o mesmo ?? É que... se uma obra é Apenas autenticada pela assinatura, como acontecerá em mais locais do que o aconselhável... está aberta, na Arte, uma verdadeira caixa de Pandora ! Os autores originais abririam essa porta eles mesmos !?



O Diabo está nos pormenores... mas se calhar este Diabo vem travestido de notas de dólar bem verdinhas...


Estas pessoas das leiloeiras que são pagas para dar espectáculo fácil, a bem dos números e dos lucros – e que entendem bem mais daquilo que vendem, do que os outros que compram – sabem bem que tudo isto é um castelo de cartas. Tanto a nível da inflacção galopante de autores desconhecidos que alguns promoveram a heróis da arte por arte$ mágica$, como a nível de problemas jurídicos que as imitações podem provocar num futuro bem próximo.


A credibilidade do negócio está por um fio. O crivo que devia ser isso mesmo é agora um autêntico passador.


Os museus também já entraram nesta estranha dança, e hoje há uma parceria pouco escondida entre o que fazem as galerias e o que fazem os museus: 

1. Galerias valorizam os SEUS artistas;


2. Leiloeiras vendem obras de autores clássicos;


3. Milionários e estrelas globais compram e inflaccionam e revendem com lucro;

4. Finalmente os museus compram e em princípio acaba-se ali o ciclo de vida útil desse objecto.

As pessoas, ou são as mesmas de instituição para instituição ou conhecem-se bem - muito bem - umas às outras. Tudo isto num sistema egocêntrico e petulante e que exibe sinais preocupantes de uma completa indiferença e um completo desinteresse pela obra de milhares de artistas contemporâneos de evidente qualidade.


O que eu estou a analisar é sobretudo o sistema da arte nos EUA, mas se encontrarem semelhanças com a realidade portuguesa, podem generalizar, sem medo de grande margem de erro, já que não se trata concerteza de pura coincidência.


Eu não sei o que vai acontecer a médio prazo, mas cheira-me que isto não vai acabar nada bem…


"- Bolha da Arte... HELLOOO ???"


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