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  • Francisco Capelo

As maiores das séries menores

Atualizado: 20 de Dez de 2020




Tenho algum receio de modas - pela simples razão de que o gosto da maioria raramente tem razão. Mesmo que essas modas apareçam sob a capa do talento puro, é sempre de desconfiar...



Essas modas surgem em catadupa e têm várias variantes e outros tantos nomes:

. “Joker”, um filme sobrevalorizado, que apresenta uma visão muito soft da loucura e que no entanto chocou/ maravilhou tanta boa gente;

. “O Gâmbito da Dama”, com uma actriz principal já cheiinha dos tiques de vedetas bem mais rodadas no mundo do showbiz;

. E agora, “A casa de papel”.

Parece que isto do Covid-19 deu a volta à cabeça de muitos confinados e que toda a mosca que aparece voando à volta da sopa aparenta ser, pelo contrário, uma bela e suculenta perdiz. Estou a ser, como os nossos irmãos brasileiros dizem, curto e grosso – mas de modo algum a situação merece uma outra perspectiva, como vão poder constatar de seguida.



Vamos então a factos, puros e duros:

. Começando por "Joker": um filme com uma estrutura simplérrima, com um actor superlativo num papel bastante óbvio e limitado, que faz o que pode para salvar uma narrativa o mais tradicional e linear que é possível existir na sétima arte. Os trejeitos do rapaz estão mesmo muito bem ? O que faltava era que não estivessem ! Estamos a falar do Joaquin Phoenix, caramba… isto não é um Brad Pitt em "Moneyball" a apanhar bonés e a estragar completamente um bom papel – este, como já o sabíamos, é um actor a sério.


Além de Sean Penn e Michael Fassbender, não estou a ver na sua geração muitos mais espécimes com talento de igual estirpe. Portanto - assunto arrumado, vamos ao próximo que se faz tarde e o jogo da bola é daqui a meia hora e eu tenho de ir preparar as pipocas e as bijecas.

. A moça do "Gâmbito de Dama" – ou Gâmbito da Rainha, francamente, arrasta-se ao longo de uma série cujo realizador não raras vezes perde completamente o ritmo e deixa aquilo andar como o dolente comboio onde Buster Keaton senta o seu cansado traseiro. E aquilo vai indo, acima e abaixo, até que este magnífico actor da época dourada (e época muito muda) do Cinema dê por ela e saia da ratoeira a tempo de se salvar.


Já o realizador da série, pelo contrário, nunca se salva, nunca tem mão na série, o que se exprime da forma mais deprimente que se possa imaginar: as jogadas de xadrez são filmadas na vertical, sem que se perceba o que vai acontecendo no tabuleiro, mas o que ficou na película da preguiçosa câmara foi a expressão facial – quase sempre a mesma – de cada actor, para que quem vê entenda quem está a ganhar e quem está em maus lençóis.


Ora bem: pedagogia sobre o jogo Nada; artifícios formais totalmente previsíveis para captar os sentimentos dos jogadores em cada jogada Tudo. Ou seja, o incauto cidadão que dê por si a ver algum episódio desta série – qualquer um, à vossa escolha, se no início não sabia jogar xadrez, no final destes 7 episódios muito menos !! Fica na mesma !


Não se trata aqui de produzir valor cinematográfico e impacto emocional através de uma compreensão – por muito básica que seja – desse que é o jogo mais complexo da História da humanidade, o Xadrez; ah, não ! Isso seria bom demais - para quem é, Monopólio basta. Trata-se, pelo contrário, de ir atrás do rosto, dos rostos de pseudo- jogadores deste jogo, e “tirar deles água de pedra”, como disseram certo dia desse mestre e esse sim verdadeiro campeão mundial, Magnus Carlsen. Ter como consultores da série nomes como o Gary Kasparov e outros especialistas é bom e dá prestígio - mas depois traduzir isso para uma linguagem comum compreensível por todos revelou-se demasiado difícil para um realizador que repete clichés estilísticos em todos os passos. É muito pouco, e o que a série retira desta estratégia não é claramente um resultado interessante; o clímax final nem sequer existe, é apenas mais uma repetição de processos anteriores e estava-se- mesmo- a- ver- no- que- ia- dar.

. E passamos finalmente para a actual moda: “A casa de papel”, que tenho acompanhado dir-se-ia com o distraído interesse de um agricultor num barco de pesca, ao largo de uma hipotética mas emocionante pesca de bacalhau na Noruega.


Esta série teve um ritmo diabólico num único episódio – logo o primeiro, algo que vai sendo costume - como um anzol de marketing, para prender logo o espectador. Nos episódios a partir daí arrasta-se como uma tartaruga de costas voltadas nas areias da praia Verde (lá para as bandas de Castro Marim, rica praia - recomendo).


Neste 4º episódio estive um pouco mais atento e essa atenção deu frutos: apesar das peripécias, a narrativa andou ZERO para a frente !! Onde estava, ficou. Os ladrões estão muito bem onde estão, e os polícias também não fazem muita pressão para sair daquela tenda em que se sentem tão quentinhos – como dizem os americanos é uma Win- Win situation ! Todos ganham e ninguém apanha tiros desnecessariamente. Siga !


Uma coisa eu tenho de reconhecer: o “Professor” tinha razão, desde o início. Pois quando a Srª polícia- nas- horas- vagas lhe perguntou o que é que ele queria, afinal, nem hesitou: “- Quero (ganhar) tempo !”.


Os espectadores ainda não perceberam, mas eu sou menos romântico: ele não deseja tempo para imprimir mais dinheiro; Naah!; ele quer, isso sim, que esta série demore muuuito mais tempo ! – o que, a ver pelos seus 31 episódios, só pode ser entendido como um autêntico e retumbante triunfo deste curioso pedagogo…


Hmmm, que saudades eu tenho de séries assumidamente humorísticas…


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