Escolho Fotos que me Inspirem

Fotógrafo - Pede AQUI para retirar a Foto do Artigo

Voltar ao BLOG
  • Francisco Capelo

Desafinar em DÓ menor






Já vi e ouvi muuuuita coisa no mundo da música e nos seus intérpretes (realmente) mais criativos:

- A excentricidade crónica de um Tom Waits aparentemente eternamente embriagado: megafones, gambiarras, cigarros em barda, anedotas desbragadas, uma voz que se divide em duas tonalidades, e uma miríade de outros artefactos mais ou menos pirotécnicos;


- O bem audível arroto de Jim Morrison no Hollywood Bowl, as divagações sobre gafanhotos, os insultos ao público e comportamento lascivo no incidente em Miami e ainda as cenas maradas com a sua mãe no The End;


- Ozzy Osbourne e a cena da galinha e do morcego e bastantes mais etceteras;


- Frank Zappa e a lenda do defecar em palco e provar do seu próprio remédio, entremeado de um concurso de nojice à desgarrada com um espectador;

- Os concertos de 10 minutos e voltados de costas para o público de uns - esses sim - revolucionários Jesus and Mary Chain; - A tirada de gosto duvidoso de Freddie Mercury no concerto mais memorável da história do rock, em pleno estádio Wembley;

- A auto destruição de um genial mas perturbado Charlie Parker, a cena do cavalo branco e muitas outras, que os amigos mais chegados sabiam de cor e salteada;


- As cenas de pugilato do incrivelmente doce (mas viciado em heroína) Chet Baker;


- A vida poética mas triste de Billie Holiday, incluindo as cenas no hospital.

..........



Portanto, tendo sabido disto tudo, perguntam-me se não fiquei surpreendido com a piada perfeitamente dispensável e absolutamente infantil e tola de Salvador Sobral. Sim, eu sei que o moço teve um momento zen, estilo épater le bourgeois a ver se pegava e eu, burguês dos sete costados desde pelo menos a morte de Brel, deveria talvez ter ficado chocado com a provocação do minino!!.. Pois, mas eu lamento; nem um pouco, nada de novo chegou a esta costa.

As circunstâncias não o aconselhavam: um concerto de solidariedade, devido à morte pelo fumo e pelo fogo de mais de meia centena de seres humanos.


Ou seja, dizer isto neste contexto é de um mau timing inacreditável, de alguém que, por muito que a sua equipa tente, nunca estará preparado para a "fama".

Mas o que me espanta não é isso: o que me espanta é Salvador Sobral não ter obra que se veja - ou melhor, que se ouça..


Jim Morrison tinha. Tom Waits também. Mercury igualmente. Zappa idem.


Estamos a falar de artistas lendários. Que o público justamente idolatrava, pela qualidade, quantidade e consistência de uma obra que fica na história da música popular.


Eles podiam, estes sim, dar-se ao luxo de nos dar um pouco de sarjeta, pois já nos tinham dado grandes álbuns, enormes pérolas.

E o que tem Salvador para nos apresentar ?

Um álbum. Apenas um álbum. Um único, para amostra.


E que nem me espantava nada que estivesse cheiinho de covers - ou seja, versões de grandes canções, standards, canções que, essas sim, pertencem a verdadeiros grandes músicos, de enorme qualidade.

Salvador tem uma irmã: Luísa. Que, ela sim, é uma artista de comprovada qualidade e consistência, e que já publicou salvo erro quatro álbuns, com um estilo musical muito pessoal e adulto, e que tem actuado em palcos de renome, aqui e lá fora.

Essa irmã - a sua - deu-lhe de mão beijada uma pequena obra prima melódica, uma letra pejada de poesia verdadeiramente insuperável na sua profundidade e simplicidade.



E fez mais - muuuuito mais:

- Tratou da viagem.


- Fez a primeira entrevista, em nome do irmão ausente.


- Cantou no primeiro ensaio.


- Deu dicas essenciais aos técnicos que filmavam a performance.


- E, que eu saiba, foi ela a envidar esforços para encontrar colaboração no arranjo musical e também a encontrar a solução para o vídeo lindíssimo da floresta que passava em background. Se estiver enganado, agradeço esclarecimento.

Ela: . Estendeu a passadeira vermelha ao irmão.

. Entregou o ouro numa bandeja de prata.


Nós: . O povo português sentiu-o como seu filho.

. Nunca uma pessoa encontrou tanto carinho genuíno.

E a paga é uma piadola de tasca, num momento que se queria único, num concerto em que tiveste o privilégio raro de actuar para finalizar, em homenagem a dezenas de almas que nos deixaram demasiado cedo, da maneira errada.

É pouco, Salvador.

É muito pouco, de tua parte.

Acorda, rapaz.

Ainda vais a tempo.



Lembra-te Sobral: primeiro a obra, só depois o que sobra..


Posts recentes

Ver tudo
Voltar ao BLOG