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  • Francisco Capelo

Essa bênção chamada “Não sei desenhar!”




Ao contrário do que se pensa e diz por aí, em faculdades de arte cheiinhas de mestres, o facto de um aluno iniciante não saber desenhar é a sua maior vantagem. Não saber fazer qualquer coisa é o melhor incentivo para aprender a fazê-la. E aprender a fazê-lo por sua iniciativa ainda melhor é. Todos falam em Picasso como o melhor exemplo de alguém que sabia desenhar maravilhosamente e que, só após isso ser um facto, se podia dar ao luxo de fazer arte de criança. Pois bem, é exactamente o contrário, e é o próprio Picasso que renega esta teoria facilitista e imediatista, sem qualquer conexão com a realidade. Ouçamo-lo em discurso directo:

“Em criança eu fazia desenhos tão realistas que ficava assustado comigo mesmo… mas tive de viver uma vida inteira para aprender a desenhar como uma criança”

– dito pelo próprio Pablo Picasso!

Existe um claro incentivar da técnica, da escola realista, que pretende obter na mera cópia da natureza o objectivo último da Grande Arte. Ora, ambas as situações estão factualmente falsas, e eu chamo agora a depôr dois monstros sagrados da arte do século XX:

Jackson Pollock (Expressionismo abstracto):

“A técnica é apenas um meio para fazer uma afirmação”

Kasimir Málevich (Suprematismo):

“Se se quer julgar uma obra de arte pelo virtuosismo da representação objectiva, ou seja, pela vivacidade da ilusão, e se acredita descobrir o símbolo da sensibilidade inspiradora na própria representação objectiva, nunca se poderá chegar ao prazer de fundir-se com o verdadeiro conteúdo de uma obra de arte”

Outra falácia é a de que apenas uma estrutura forte de desenho pode fundamentar uma pintura de qualidade. E mais uma vez, tal não se verifica: quase todos os grandes pintores da arte moderna e contemporânea abdicam voluntariamente desta base, ao fazer as suas obras com tinta directamente na tela. Poderei facilmente desmistificar também esta ideia, através de um artista muito especial:

Paul Klee:

“Desenhar é levar uma linha a passear”

Baseando a nossa postura em arte nestes pensamentos extremamente parciais, voltamos ao crivo preconceituoso e insensato do júri do Salon de Paris, voltamos à fase pré- cinema e pré- fotografia, fase essa que levou os artistas daquele tempo a uma situação- limite, em que era claramente questionada a sua valia e a sua utilidade. Este dilema levou ao surgimento, como é sabido, das duas escapatórias criativas intituladas Cubismo e Abstracção, no início do século XX, e a toda uma revolução artística que levou a arte a novos voos e a novas soluções – tanto em termos de representação pela perspectiva, como na temática, ou em mil e uma adaptações da técnica individual do artista, sendo que a arte como ideia e a inclusão de objectos no discurso plástico são talvez os contributos mais chamativos, neste percurso de um século e meio que ainda ressoa nos nossos dias tão dados ao esquecimento colectivo..

Voltando ao desenho: não saber desenhar é o maior trunfo do artista iniciante. E isto porque, ao confrontar-se com as suas próprias limitações técnicas, o artista vai estabelecer um diálogo profícuo e profundo com os materiais – sendo que a técnica é apenas a forma como essa pessoa usa esse material, apenas isso - como muito bem destacou Pollock.

Ser um auto- didacta é igualmente a melhor maneira de evoluir mais depressa, pois a expressão pessoal do seu mundo interior irá dar-se ao seu ritmo natural, e não através de uma tentativa de normalização estilística que ocorre sempre que se confia ao ensino da escola do realismo o desenvolvimento de uma vocação nascente – e que, temos de reconhecer, a pode tolher para sempre..

Pessoalmente adoro alunos que me digam: “- Não sei absolutamente nada”. Ora, se nada sabem, muito têm a aprender.. não me preocupa que nada saibam: preocupa-me isso sim o que eles pensam que é “arte de qualidade” e também se querem ou não, efectivamente aprender!

Saber desenhar… o que é isso?? Em arte e para artistas iniciantes, muitas vezes é o mais prejudicial.

É melhor saber sentir e saber amar. O resto vem depois.

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