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  • Francisco Capelo

Lápis Não !



Existem 3 razões fortes para o artista iniciante usar lápis. Vou tentar explicar porque estas razões não têm qualquer razão de ser, e porque deves abandonar este material (já).


Confuso? Vem daí!



. Razão nº1


O artista iniciante quer aprender. Aprender tudo. E rapidamente. Para ontem, se possível. Aprender tudo já, claro está, não é possível. Mas só existe algo que ele receia ainda mais do que não estar preparado a nível técnico: a ansiedade de saber antecipadamente que vai errar.


E ele tem um método infalível para isso não acontecer, a sua arma secreta: Dom Quixote. Este intrépido cavaleiro andante tem a forma, em arte, de um lápis. E, acompanhado como sempre, pelo seu fiel escudeiro – Sancho Pança, que come tudo, inclusive as deficiências do desenho – ou seja, a borracha. É com esta dupla invencível – lápis e borracha – que ele (ou ela) julga dominar as misteriosas artes da arte.


Puro engano: o remédio apenas agrava a doença – em vez de a curar. Tenho visto pessoas perdidas na tela, abandonadas em plena folha de papel, pela única razão de atribuírem poderes mágicos ao lápis. O que o lápis faz é agravar a falta de ideias - não as cria! Nem chega a ser magia; é simplesmente auto- ilusão.


Ao pensar que pode emendar eternamente tudo o que o lápis ou grafite ou barra de carvão faça na superfície à sua frente, e que se tudo falhar ainda tem o recurso milagroso da borracha, o que este artista iniciante está a conseguir é adiar o inevitável: pensar. Pensar e sentir. Porque, se o fizer, este pensamento e esta emoção viajarão à velocidade da luz da sua mente para o seu pulso e para o papel ou tela.


Ao transferirmos a essência da arte do nosso interior para o material, fazemos um mau serviço ao crescimento da nossa própria personalidade.


E é por isso que esta é a primeira razão para ser imperioso deixarmos de utilizar lápis e borracha.



. Razão nº2


O segundo erro é tão simples de entender e no entanto continua a ser cometido: o desenho a lápis ou grafite serve de esboço preparatório para uma pintura. Praticamente todos os grandes artistas utilizaram este processo na sua arte. Outro engano: ganha-se em estrutura e previsibilidade do efeito visual final o que se perde em originalidade e autenticidade.


O fundamental expressionista abstracto Jackson Pollock dizia a certa altura, decerto já cansado de tanta artimanha técnica, qual muleta criativa:


Eu quero expressar as minhas emoções; não ilustrá-las!” - J. Pollock



E, no entanto, é exactamente isto o que legiões e gerações e quiçá mesmo religiões de artistas continuam a fazer: ilustrar em vez de expressar. Estes (e são muitos) técnicos da pintura não são pintores – são i-l-u-s-t-r-a-d-o-r-e-s!! Porque primeiro desenham a estrutura de linhas e só depois colocam as cores nos quadradinhos certos.


Ora, com isto perde-se o essencial: a intuição, o fluxo directo da expressão plástica, o sentimento – aquilo a que Antoni Tàpies apelidava de “mão do artista que sensibiliza a matéria”.


Ganha-se um Mondrian e perde-se um Klee – é mais ao menos assim (a comparação não é feliz, mas é o mais aproximado, desculpem-me os puristas).



. Razão nº3


E este novo erro traz-nos a um novo engano: ao fazer a preparação para uma pintura, o desenho em si mesmo será soterrado por camadas e camadas de tinta. Já vi trabalhos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s de Salvador Dalí feitos com lápis e que ficaram para sempre perdidos, porquê? – Ora, porque foram submergidos em tinta, claro está! E que erro é este, então?


Muito simples: a pintura é encarada como a técnica definitiva (e o óleo em tela é endeusado ainda por muita gente), o que leva ao facto consumado de nunca dar valor e assumir o desenho como uma obra acabada e com valor intrínseco e autónomo. O desenho está lá para servir de andaime – nada mais do que apenasmente isto... Um tocador de bombo, um carregador de piano, para os Maradonas deste mundo e arredores poderem pintalgar as suas obras- primas.


Talvez seja por isso que Escher e mais uns quantos bons samaritanos continuarão provavelmente a ser casos isoladíssimos na História da arte.


Vou ser claro: não me interessa, pessoalmente, que seja usada a técnica da tinta da china, ou a da gravura, ou a da litografia, ou o acrílico em tela, ou a caneta em papel; interessa-me isso sim o resultado final. E o resultado final é o preto e branco, um Black & White que é mágico, de um impacto brutal. Algo próximo de um Corto Maltese ou mesmo de Sin City - puxando para a linguagem gráfica da BD.


Uma vez que a cor, neste tipo de trabalho, está claramente a mais, e se eu, enquanto artista, abomino o lápis, é porque pura e simplesmente o lápis me dá somente uma escala de cinzentos – não negro.


E quando eu vou para uma batalha de pensamentos (ou seja, quando coloco uma folha de papel branco na mesa), gosto de ir com as armas certas para o contraste cromático total.


E, ou muito me engano, ou é o preto sobre branco (ou o branco sobre negro) que o consegue – não um cinzento pálido e entristecido e completamente neutral.



Não preciso que concordes comigo – aliás, nem quero.


Quero apenas uma coisa: pega num lápis ou grafite; e papel ou tela - e prova que eu estou errado. Só te peço uma coisa: deixa esse desenho como está – mesmo que consideres que está inacabado. Deixa-o respirar, deixa-o viver.


Porque, podes crer que no exacto momento em que colocas nesse desenho a gota mais fina da tinta mais transparente com o pincel mais pequeno do mundo – tu já perdeste a sua alma.



Compreendes, agora..?


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Francisc Capelo - Art Studio - Cascais