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  • Francisco Capelo

Leiloeiro de cara à banda




Pois é. Ah, pois é.


As leiloeiras e as galerias de renome e os marchands e – como diria Sérgio Conceição – “As toupeiras e essa bicharada toda” estavam a dormir no pedaço, parafraseando os nossos irmãos brasileiros.


Puseram-se mesmo a jeito e fizeram por merecer esta bofetada de luva branca e já agora, de colarinho branco também.


A uma histórica e atávica falta de corporativismo da classe artística – em que cada um puxa para o seu próprio umbigo e em que sub- classes como os actores, músicos e humoristas levam a palma da popularidade e da atenção mediática, um artista plástico chamou a si a tarefa de ridicularizar a faceta negócio e a faceta mercado, nesta tão nobre actividade criativa.


Fê-lo com um hara- kiri genial, destruindo a sua obra perante os olhos incrédulos de quem, não só não estava à espera daquilo, como não percebia patavina do que estava a acontecer diante dos seus rostos.


Ora, o negócio e o mercado reagiram da única e completamente estúpida maneira que sabem: perante o inesperado, não pedem explicações ao artista, pois isso seria perder tempo – inflacionam imediatamente o preço da obra, ou o seu valor, o que vai a dar no mesmo, pois isso é a única coisa que sabem fazer: a única linguagem que entendem é a do cifrão.


. Será este o mais mediático e espectacular golpe que um artista visual aplica no mercado, de forma visível e directa ? - Sim, provavelmente será.

. Mas… será exemplo único ? - Nem por sombras.


Para só recordar o óbvio, a arte conceptual defende que a arte é ideia, e só deverá existir em pensamento, e talvez por isso mesmo muitas das suas acções são apenas fotografadas e são esses registos fotográficos que são no final comercializados, para ajudar a financiar obras futuras desse(s) artista(s).


Indo um pouco mais longe nesta sucinta análise, a arte efémera existe apenas por um breve período de tempo, e os seus produtos são muitas vezes destruídos.


Já o happening é um movimento artístico que defende uma visão teatral da arte e leva a cabo performances – novamente a ideia em si é mais forte e importante do que cristalizar essa ideia num objecto físico.


Portanto, esta acção de Banksy situa-se muito provavelmente na intersecção destas vertentes mais radicais da arte – mas que existem e se têm desenvolvido desde os anos 60 (ou mesmo antes, se considerarmos os exemplos de Duchamp ou Malévich uma origem histórica da atitude conceptual).


Pessoalmente, considero que a obra de arte mais próxima desta acção de sabotagem é mesmo o “Desenho apagado de De Kooning”, levado a cabo pelo então jovem Robert Rauschenberg. Este artista pediu um desenho ao artista já consagrado de Kooning, que tinha criado a influente série Mulheres, que mesclava magistralmente o figurativo e o abstracto, e disse-lhe que queria apagar o seu desenho. De Kooning deve ter achado piada à ideia e Rauschenberg esteve a apagar durante dias – Dias ! – este desenho, que foi depois apresentado em público e é hoje encarado como um marco da arte mais inovadora daquela época, tendo ficado com um lugar especial na história da arte contemporânea. Para um exemplo mais recente, o controverso Ai Weiwei pintou e esmagou vasos chineses de uma antiguidade incrível, para obter um efeito mediático semelhante. Estas são acções que são obras de arte em si mesmas - é a atitude, o pensamento, a ideia, o essencial.


Agora, o problema mantém-se: o artista enquanto exemplo, enquanto “ilha de liberdade” – segundo Tàpies ou Saramago – está a ser completamente submergido pelos intermediários da arte – sejam eles agentes oportunos e ambiciosos como Saatchi, galeristas já estabelecidos com negócios de milhões, e toda a gente, sem excepção, vive desta inflacção galopante neste mercado, tentando puxar a brasa à sua sardinha de um modo descarado.


O problema não é a atitude de Banksy; o problema são no fundo dois problemas:


1. O sistema instituído de valorização de obras de arte não fazer qualquer sentido (museus incluídos, pois fazem o mesmíssimo jogo dos demais, legitimando coisas incríveis)


2. E sobretudo – não haver mais, muitos mais Banksys


Portanto: volta, Joseph Beuys, que estás completamente perdoado…

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Francisc Capelo - Art Studio - Cascais