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  • Francisco Capelo

Loucura Chique



Antes de mais, uma breve carta de intenções: sofro de depressões desde os meus 18 anos. E francamente, o Cinema tem tratado o assunto da doença mental como um verdadeiro atrasado mental. Os únicos filmes sérios a sério são “Voando sobre um ninho de cucos” no já longínquo ano de 1975 e o mais recente “Uma mente brilhante”, onde Russell Crowe faz um brilharete; os outros filmes todos ou quase todos fogem como o diabo da cruz deste tema sempre espinhoso. E este assunto coloca um grande grande problema aos realizadores, que é o problema da perspectiva: o filme será filmado sob a perspectiva de quem? Da pessoa que é exterior e acha que o outro é louco e deve ser metido rapidamente num asilo - ou pela óptica de quem sofre interiormente e se quer expressar, a todo o custo, e que acha o que faz completamente normal?


E é neste pormaior que o seu realizador inova: o filme é construído com os olhos e as experiências e emoções de Joaquin Phoenix - o tão temido e no entanto tão frágil Joker.


Dizem deste filme que é um grande filme. Na minha opinião é um filme necessário para o nosso tempo - mas não necessariamente um grande filme. Aliás, os inauditos e intermináveis 8 minutos de ovação em pé da plateia em Veneza muito provavelmente surpreenderam estes dois homens: Todd Philips e o seu actor principal - mais, muito mais do que surpreenderam todos os outros, estou certo disso. Joaquin tem o desempenho que se esperaria num papel sofredor de alguém que é também um sofredor, basta conhecer um pouco da sua vida para o saber de antemão. Que era e é e sempre será - em parceria com Fassbender - o melhor actor da sua geração, já o sabíamos.


E chegamos à razão de ser do título deste artigo: a moda social instalada daquilo que se pode apelidar de loucura chique. Numa era vazia e de valorização extrema da superficialidade, de turismo por encomenda, de criação generalizada de experiences que a AirBnb tem tentado popularizar, de eventos únicos como concertos ao vivo pagos a peso de ouro - é neste contexto que coisas totalmente out of the box têm uma elevadíssima procura.


E é aqui que a doença mental entra na equação, de uma sociedade que só sabe viver no seu dia a dia paredes meias com a banalidade, mas que, quando vai ao cinema, prefere de longe uma experiência forte, a que só um plano mental diferente sabe dar resposta. Ou seja, a loucura torna-se de repente desejável - por ser mais uma experiência que sai fora do habitual.


Confesso que não entendo o choque de certas - muitas - pessoas perante o filme Joker. Mas também nunca entendi o choque, a comoção autêntica de muita gente com os filmes sobre Jesus Cristo. E foi então que a minha mente ligou os pontos: as pessoas sentem-se chocadas quando estão profundamente ligadas à personagem. Ora, eu pensava que no caso de Cristo esta seria a única situação em que tal aconteceria; o caso mais extremo de emoção colectiva perante o sofrimento de um ser humano.


Mas eu enganei-me redondamente: no caso de Joker, essa ligação é também ela extremamente profunda, fruto de décadas de uma cultura assimilada e amada de comic books e de uma sucessão de filmes que estabeleceram a marca Batman no imaginário colectivo.


As pessoas reagem de um modo mais forte a novas informações sobre personagens/ personalidades que estão mais próximas de si e com quem estabelecem uma relação de amor - ou ódio mais vincada. É, claramente, o caso deste filme.


Os problemas que este filme coloca, como por exemplo:


. a empatia entre o público e uma personalidade criminosa;

. uma certa glorificação da violência gratuita;

. a insanidade como ideologia no dia- a- dia


- tudo isto, só tem, para as autoridades americanas, um outro problema: o filme vê e sente pelos olhos e alma do louco/ criminoso - o Joker.


O problema é só esse! - empatia das massas por um louco sanguinário - que leva sempre ao eclodir de mais, muitos mais casos de rebeldia e violência. E ao caos social, económico e, como consequência - caos político.


Este filme tem tudo para ser apenas mais um caso isolado na história do cinema - como vários outros, aliás. Vou citar apenas dois:


. Danças com Lobos: aqui, o problema residia na história recente da América ser vista pelos olhos do povo errado - os Índios!


. Apocalipse Now: neste clássico moderno, a guerra – exportada pelos grandes Estados Unidos da América para todo o mundo há muuito tempo, recorde-se - era tratada como ela realmente é: pura e dura loucura total. Ora bem, aqui o problema consistia em dizer a verdade - mas no momento histórico errado!


Um dos grandes problemas das autoridades americanas é que não tentam procurar as causas - e quando o fazem, é no sítio errado; e depois nem compreendem nem sabem tratar as consequências.


Como dizia Jim Morrison dos The Doors, nesse monumento da sensibilidade chamado An American Prayer:


" - The movie will begin in five minutes, the mindless voice announced… "


Senhor pai de Jim, faça um favor à malta e desta vez vá mesmo ver e ouvir esse filme.. *


* P.S. Private joke deste fã dos The Doors


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