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  • Francisco Capelo

Materiais simples, grandes obras



“Nunca dei grande importância às relações da arte com a técnica. Sempre recordo como me pareceu ridículo ouvir alguém dizer que as obras de Beethoven eram superiores às de Mozart porque dispunham de uma orquestra mais aperfeiçoada tecnicamente”


Antoni Tàpies



Sou suspeito: talvez por considerar Tàpies o meu mestre, concordo totalmente com esta afirmação. Mas concordo muito mais porque, de facto, arte de qualidade nada tem a ver com uma técnica considerada excelente. Uma vez mais foi Tàpies quem escreveu o livro “A arte contra a estética”. E uma vez mais faz todo o sentido.



A diversidade criativa é um valor em si mesma. Por exemplo: todos pensam que a técnica de Van Gogh é insuperável. Não é, longe disso. Aliás, o que é excepcional em Vincent Van Gogh é a sua expressividade e o seu amor profundo à beleza incandescente da natureza.


E, depois de uma época de estranha indiferença, o Impressionismo foi preparado para agradar às massas e muito provavelmente a foto de família ficaria a destoar sem o pós- Impressionismo (no qual o nosso amigo holandês se inclui).


Havia que entrar rapidamente nesse comboio em andamento, um comboio posto a circular por críticos e marchands que antes assobiavam para o ar; sempre à procura da próxima moda em que apostar as fichas todas e mais algumas, antes que fosse tarde demais.


Mas adiante, que atrás vem gente (e gente bastante apressada).



Que seria da História da arte sem a sua enorme e reveladora diversidade?

Que interesse teria essa história se fosse feita apenas de surrealismo? Ou se o expressionismo e as suas variantes existissem sós, no vazio dessa longa noite existencialista? - Basquiat, Kirschner, Munch e poucos mais? Ou se ele tivesse acabado na vertente realista, logo ao virar da esquina Renascentista, como alguns ainda defendem?



Mas voltemos às técnicas e voltemos aos materiais. Existem ainda muitas almas que pensam no óleo sobre tela como a técnica perfeita. E, para esses muitos, é-o.

É a técnica perfeita: seca muito devagar – logo podem-se misturar as tonalidades até ao fim do mundo, se necessário. Começar uma obra, destruir certas partes e voltar a reconstruir é todo um processo, um processo calmante, lento e criativo qb.


Ao longo de longos séculos, esta técnica sempre gozou de enorme popularidade. E continua a ter essa primazia, pelo menos nas mentes sempre pouco informadas do público em geral.


Depois surgiram as tintas acrílicas - e a velocidade de execução foi acrescentada a uma equação (e a mentalidades) que infelizmente não tiveram grandes oscilações desde esse momento.



Não sou artista de utilizar apenas uma só técnica e um só material. No meu percurso de quase 30 anos de dedicação ao desenho, pintura e escultura já usei:


. Lápis e canetas de cor

. Canetas de feltro, corrector e marcadores

. Cola transparente

. Tinta da china e pincel chinês

. Aguarela e guache e acrílico

. Papel e tela; ramos de árvore; gavetas de cómoda

. Cordas e pregos e parafusos e tecidos

. Rasgões e colagens em telas viradas do avesso

. Esculturas de telas



Tudo isto muitas vezes misturando vários materiais na mesma obra, através da famosa técnica mista.


Não me interessam pensamentos únicos, em arte. Um artista precisa de se expressar. E, se para o conseguir, tiver de utilizar algo tão exótico como as suas próprias fezes, como fez uma artista louca conotada com a Arte bruta de Jean Dubuffet, salvo erro em França, assim seja.



Porque a Arte é sempre, sempre mais forte. E a necessidade interior do artista, como proclamou Kandinsky, ainda comanda esse sonho tão especial, tão pessoal.


Faz um favor a ti mesmo: não te limites; e segue a tua intuição. Os materiais simples revelam a nossa alma como nenhuma técnica complexa o poderá fazer.


Existe um movimento artístico chamado de Arte Pobre. Mas não há materiais pobres.



Apenas almas que, por estarem adormecidas, se tornam, por breves momentos, pobres.


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Francisc Capelo - Art Studio - Cascais