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  • Francisco Capelo

Mitos da Arte - Art Myths


Art Myths - Mitos da Arte

Mito – Se eu dominar a técnica, serei um artista


Hoje vou falar-vos dos muitos mitos e preconceitos associados à ideia que se tem do que é a técnica ou o domínio técnico de certos materiais em arte. Em cada destas noções erradas, irei apresentar um ou mais exemplos e posições de artistas que mudaram os paradigmas da pintura moderna e contemporânea, para que se possa ter uma visão de conjunto que esclareça e vá além do senso comum.



Primeiro mito: “ - Se eu dominar uma técnica serei um artista”


. Esta ideia está errada porque uma técnica não é um fim em si mesmo. Segundo o essencial expressionista abstracto Jackson Pollock, que foi o divulgador da técnica radical do dripping: “A técnica é apenas um meio para fazer uma afirmação”. Logo, o que é essencial é fazer essa afirmação através do material utilizado e não somente a técnica que se usa para fazer essa afirmação.


Segundo mito: Ter o foco no material caro e na técnica aperfeiçoada e não na emoção e na criatividade


. Ora, este mito esconde o essencial: o medo de começar e o medo de não ter nada para expressar. Arte é inteligência emocional em movimento; não apenas o domínio artesanal de um material e/ ou técnica. A aposta nos materiais mais caros porque se pensa que, se os tiver, será melhor, apenas demonstra um completo desconhecimento e um eterno adiar do que é realmente essencial.

Para contrapor a esta ideia poderei aqui falar por exemplo de uma tendência para a chamada arte pobre, que utiliza materiais banais e até lixo, representada por artistas tão fulcrais como o informalista Antoni Tàpies e também Jannis Kounellis.


Terceiro mito: Tenho de saber desenhar para ser um artista


. O artista iniciante pensa muitas vezes que o mais importante é “saber desenhar”, por acreditar que arte se resume a isso. No entanto, esta é mais uma ideia errónea: o realismo representa actualmente uma pequena parte do todo da expressão contemporânea das artes plásticas. O que se pensa ser a expressão pura da inspiração artística é apenas uma técnica de cópia das linhas da realidade. Aqui como em tudo, há pessoas com mais vocação para este tipo de expressão plástica do que outras, mas isso não significa grande coisa, em arte.


Quarto mito: Devo trabalhar com a cor e não a linha


. O artista que está a começar tem uma clara orientação para o trabalho com a cor; isto sucede porque a linha assusta, e assusta porque exige uma ligação muito mais profunda à realidade, uma verdadeira reinterpretação da vida. E isto não tem nada a ver com técnica – como o demonstra a arte quase infantil de Joan Miró e Paul Klee: eles criaram um estilo de desenho autónomo da realidade, por assim dizer, mas que a exprime de um modo muito mais intenso do que a sua cópia literal através do desenho tradicional.


Quinto mito: O gosto generalizado pela pintura do Impressionismo


. Este que curiosamente é o último movimento apreciado de forma unânime, foi duramente criticado na altura por todos, do público aos críticos de arte, incluindo o júri do Salon… Isto cria a ilusão de que o Impressionismo é a única forma de pintura da arte moderna e contemporânea que tem realmente valor intrínseco, o que está muito longe de ser verdade.



Agora, vou sugerir coisas simples que podes fazer para ultrapassar estes receios naturais e estas ideias erradas, que podem prejudicar a expressão do teu talento:


Ponto um: encontrar o material certo, e para isso deverias experimentar vários materiais e confiar na intuição para saber qual é aquele que vai expressar o teu mundo de referências e emoções. No entanto, se esta relação não for imediata, isso não significa que devas rejeitar esse material, pois mais tarde num contexto diferente poderá ser importante para a evolução do teu estilo pessoal.


Ponto dois: descobrir a relação mágica com a cor; e aqui há que descer ao rio interior de cores que existe dentro de cada ser humano; qual é o teu discurso pessoal da cor ? Uma coisa é a tua cor preferida –e todos nós temos uma; outra coisa completamente diferente é a relação que cada cor estabelece com as outras cores dentro de cada tela: ou as várias tonalidades comunicam entre si de uma forma autêntica e fluida, ou não – e nesse caso há que ir mais fundo dentro da tua própria personalidade para encontrar as respostas que procuras fora de ti, de um modo forçado.


Aqui vou dar-te alguns exemplos: o artista Yves Klein estudou e experimentou tintas durante vários anos para obter um tipo de azul profundo a que chamou de International Klein Blue e para veres o seu nível de seriedade até chegou a patenteá-lo ! A partir desse momento todas as suas obras levavam um banho desse azul, ele ficou obcecado pela beleza dessa tonalidade de azul.


Outro exemplo: Paul Klee e a sua viagem à Tunísia; as cores quentes do norte de África levou-o a reconhecer: “A cor descobriu-me: já não preciso de a procurar – sou um pintor”.


Ainda mais um exemplo: Joan Miró; o preenchimento de cores deste artista é único e baseia-se em dois elementos importantíssimos: cores puras, primárias e aquilo que é essencial: as mesmas cores são colocadas em diagonais.


Ponto três: qualquer artista, seja ele um iniciante ou reconhecido, apresenta, quer ele queira ou não, factores próprios na sua arte: a isso dá-se o nome de estilo pessoal. O estilo em si nunca será 100% original, mas a mistura que faz de inúmeras influências tem de ser única. Ora, esta busca incessante pode durar uma vida inteira, assim como pode ser algo muito rápido.


Também há exemplos de artistas plásticos que aparentemente negam esta regra e desenvolveram séries de trabalhos muito diferentes: sendo Pablo Picasso, Damien Hirst e Gerhard Richter talvez os casos mais conhecidos.



Para terminar, e neste âmbito de um certo predomínio da técnica sobre a inspiração pura, quero falar de alguns artistas e situações que são, quando as analisamos, mitos claros que afectam a forma como o público vê e sente a arte.


Primeiro exemplo: a obra “Os Girassóis” de Van Gogh é considerada uma pintura genial pelo simples facto de ter sido pintada quase exclusivamente com diferentes tons de amarelo. Ora, eu gostava então de perguntar: o que tem isto a ver com arte de qualidade ? Este é obviamente um argumento de quem não entende a alma do artista e as suas motivações profundas, ao criar obras de arte.


Segundo exemplo: e ainda Van Gogh: todos consideram hoje em dia a sua técnica brilhante; e no entanto ele pintava directamente do tubo de tinta; há na sua pintura muitas vezes um empaste exagerado; as figuras humanas têm contornos e expressões básicas; a pincelada larga tão típica de um certo expressionismo não pode ser considerada uma técnica avançada; e o seu foco na cor e não no desenho foi criticada por Gauguin e pelos seus contemporâneos, sendo que nos dias que correm é verdadeiramente endeusada – tanto pelo pelo público como pela crítica especializada.


Terceiro exemplo: outra obra interessante é a de Georg Baselitz: este artista vira as suas telas ao contrário. Para entender este tipo de expressão plástica há que compreender a necessidade e até a óbvia dependência que o discurso da novidade contínua introduziu na arte contemporânea. O choque visual faz parte de muita da arte que se tem feito nas últimas décadas – e esta agressividade visual consciente e constante levou a um certo descrédito do mundo da arte, no seu todo.


Quarto exemplo: já na pintura de Francis Bacon existe um culto da distorção e da brutalidade do gesto. Aqui, devemos considerar que desde o Cubismo a construção de uma pintura se faz pela lógica interna do artista, não pela cópia da realidade.


Quinto exemplo: outros artistas que levaram a arte ao limite do conceito destruição- criação são: Manolo Millares, Joan Miró – que dizia que havia a necessidade de assassinar a pintura para criar algo de novo, Antoni Tàpies - que levou a pintura para lá de qualquer limite técnico e o escultor francês Cesar, que, com as suas compressões de carros, questiona claramente o conceito de escultura.



Resumindo: se ao entrares na arte quiseres aprender apenas aguarela, ou óleo, ou acrílico, entras com o pé esquerdo. Arte é arte. Não deixes uma só técnica definir-te enquanto artista. Serás reconhecido, não pela técnica que usas, mas pelo que vais criar com essa e outras técnicas. É o artista que usa a técnica; não a técnica que faz o artista. E imensas vezes, o artista começa por ter muitas fragilidades técnicas e vai construindo a sua forma de trabalhar através do erro e repetição, até acertar com a melhor forma de trabalhar com determinado material. As nossas insuficiências são o nosso melhor aliado, porque nos forçam a tentar de novo e desencadeiam mecanismos de compensação. E é por isso que, em arte, é melhor ter bastante paciência do que ser um bom artesão…



( em INGLÊS )



Myth - If I master the technique, I will be an artist


Today I am going to talk about the many myths and prejudices associated with the idea of ​​what is the technique or the technical mastery of certain materials in art. In each of these misconceptions, I will present one or more examples and ideas of artists that have changed the paradigms of modern and contemporary painting, so that one can have an overall vision that clarifies and goes beyond common sense.



First myth: “- If I master a technique I will be an artist”


. This idea is wrong because a technique is not an end in itself. According to the essential abstract expressionist Jackson Pollock, the promoter of the radical technique of dripping: "Technique is only a means to make a statement." Therefore, what is essential is to make this statement through the material used and not just the technique used to make that statement.


Second myth: The focus on expensive material and improved technique; not on emotion and creativity


. This myth hides the essential: the fear to begin making art and the fear of having nothing to express. Art is emotional intelligence in movement; not only the artisanal domain of a material and/ or technique. The bet on the most expensive materials because one thinks that if you have them, you will be the best artist, only demonstrates a complete lack of knowledge and an eternal postponement of what is really essential.


To counteract this idea I can speak here, for example, of a tendency towards so-called poor art, which uses banal materials and even garbage, represented by artists as central as the informalist Antoni Tàpies and also Jannis Kounellis.


Third myth: The most important thing is traditional drawing


. The beginner artist often thinks that the most important is the realistic drawing, because he believes that art comes down to this. However, this is another misconception: realism is now a small part of the whole of the contemporary expression of the visual arts. What is thought to be the pure expression of artistic inspiration is merely a technique of copying the lines of reality. Here as in everything, there are people with more vocation for this type of plastic expression than others – but that means nothing at all.


Fourth myth: Working on colour; not the line


. The beginner artist has a clear orientation towards working with colour; this happens because the line scares, and it scares because it demands a much deeper connection to reality, a true reinterpretation of life. And this has nothing to do with technique - as the almost childlike art of Joan Miró and Paul Klee demonstrates: they have created a style of autonomous drawing style, out of reality, so to speak, but which expresses it much more intensely than it´s literal copy.


Fifth myth: The generalized taste for Impressionist painting


. Curiously, Impressionism is the last movement unanimously appreciated by the population, but it was harshly criticized at the time by everyone, from the public to art critics, including the jury of the Salon ... This creates the illusion that Impressionism is the only painting style of modern and contemporary art that really has intrinsic value, which is far from being true.



Now, I will suggest simple things you can do to overcome these natural fears and these misconceptions that can detract from the expression of your talent:


Point one: find the right material, and for this you should try out various materials and rely on intuition to know which one is going to express your world of references and emotions. However, if this connection is not immediate, this does not mean that you should reject this material, because later in a different context it may be important for the evolution of your personal style.


Point two: discover the magic relationship with color; and here we must enter into the inner river of colors that exists within every human being; What is your personal color speech? One thing is your favourite colour - and we all have one; another completely different thing is the comunication that each color establishes with the other colors within each canvas: or the various tones communicate with each other in an authentic and fluid way, or not - and in that case you have to go deeper inside your own personality to find the answers that you now seek out of yourself in a forced way.


Here are some examples: the artist Yves Klein studied and experimented with paints for several years to obtain a kind of deep blue that he called International Klein Blue and for you to see his level of seriousness, he even patented it! From that moment on, all his works took a bath of this blue, he was obsessed by the beauty of that blue tonality.


Another example: Paul Klee and his trip to Tunisia; the warm colors of northern Africa led him to recognize: "Color has discovered me: I no longer need to look for it - I am a painter."


One more example: Joan Miró; the color filling of this artist is unique and is based on two very important elements: pure, primary colors and what is crucial: the same colors are placed on diagonals inside the artwork.


Point three: any artist, be it a beginner or well known, presents, whether he wants to or not, specific factors to his art: this is called a personal style. The style itself will never be 100% original, but the mix it makes of countless influences has to be unique. Now, this incessant search can last a lifetime, or it can be very fast.


There are also examples of visual artists who apparently deny this rule and have developed very different series of works: Pablo Picasso, Damien Hirst and Gerhard Richter are perhaps the most well-known cases.



Finally, and in this context of a certain predominance of the technique over pure inspiration, I want to speak about some artists and situations that are, when we analyze them, clear myths that affect the way the public sees and feels the art.


First example: the Van Gogh´s work "Sunflowers" is considered an ingenious painting by the simple fact of having been painted almost exclusively with different shades of yellow. Now, I would like to ask: What does this have to do with quality art? This is obviously an argument of one who does not understand the soul of the artist and his deep motivations, when creating works of art.


Second example: and still Van Gogh: everyone considers his painting technique brilliant, nowadays; and yet he painted directly from the paint tube; and often presents an exaggerated impasto; and his human figures have basic contours and expressions; and the broad brushstroke so typical of a certain expressionism cannot be considered an advanced painting technique; and his focus on colour rather than drawing has been criticized by Gauguin and his contemporaries, but is now truly deified - both by the public and by the critics.


Third example: Another interesting work is that of Georg Baselitz: this artist turns his paintings upside down. In order to understand this type of plastic expression one must understand the necessity and even dependence that the discourse of continuous novelty has introduced in contemporary art. The visual shock is part of much of the art that has been done in the last decades - and this conscious and constant visual aggressiveness has led to a certain discrediting of the art world as a whole.


Fourth example: in the painting of Francis Bacon exists a cult of the distortion and the brutality of the gesture. Here we must consider that since Cubism the construction of a painting is done by the internal logic of the artist, not by the copy of reality.


Fifth example: other artists who took the art to the limit of the destruction- creation concept are: Manolo Millares, Joan Miró - who said that there was a need to assassinate the painting to create something new, Antoni Tàpies - that took the painting beyond any technical limit and the French sculptor Cesar, who, with his compressions of cars, clearly questions the concept of sculpture.



In short: if you go into art with an attitude of learning only watercolor, or oil, or acrylic, you enter with the left foot. Art is art. Do not let one technique define you as an artist. You will be recognized, not by the technique you use, but by what you will create with this and other techniques. It is the artist who uses the technique; not the technique that makes the artist. And many times, the artist starts with many technical weaknesses and builds his way of working through error and repetition, until he gets the best way to work with certain material. Our technical weaknesses are our best allies, because they force us to try again. And that is why, in art, it is better to have patience than to be a good craftsman.

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Francisc Capelo - Art Studio - Cascais