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  • Francisco Capelo

Nona arte... em parte




Convenhamos: a banda desenhada, ou na vetusta expressão dos nossos irmãos brasileiros história em quadrinhos, tem ainda muito caminho a percorrer para ser considerada uma arte autónoma.


Nos dias que correm, deste presente tão ausente, a mais velha profissão do mundo – a pintura rupestre (em que estavam a pensar ..?) deu lugar a uma categoria que alegadamente mistura cor, palavra e imagem, sem contudo ser algo mais do que apenas e simplesmente uma antecâmara para roteiros cinematográficos em catadupa.


A auto- intitulada BD adulta – que não é a BD para adultos.. – pura e simplesmente não existe: um mito, uma ficção, e passo a explicar o porquê desse infeliz facto.


Corto Maltese de Hugo Pratt tem sido apontado pela maioria como o trabalho que veio revolucionar a BD, que a tornou adulta.


Ora bem, vejamos então as falácias:


. Tem uma estrutura narrativa convencional ? – Tem.

. Tem personagens como todas as BD´s ? – Sim.

. Tem a regra da perspectiva lá pelo meio ? – Claro.


Então onde diabo Maltese se distingue de tudo o resto ?


Em duas coisas:


. Texto vagueante, digamos assim, tentando ser misterioso e pretensamente filosófico a todo o momento.

. e um desenho inacabado, que muitos criticaram por ser imaturo, imperfeito, quase infantil.


Para quem como eu, leu O desejo de ser inútil - Memórias e reflexões, sobre Pratt, ficará com uma perspectiva talvez um pouco diferente - para pior - da sua obra.


Mas agora digam-me: são estes elementos - texto vagueante e desenho imperfeito - suficientes para que uma BD se assuma como adulta ?!?


- Não me parece.


Ah, mas há mais:


O Mercenário, de Vicente Segrelles. Há quem veja nesta BD e jure a pés juntos que esta é a fusão perfeita das artes plásticas e da mais recente nona arte.


Qual a razão?


- Pela única e especial razão de que cada quadradinho é composto por uma tela pintada a óleo e de seguida digitalizada para encaixar na página.


Bom. Tudo isto é muito pouco. Pouco demais.


Se realmente a BD quer ser levada a sério e ser realmente adulta, tem de fazer muito melhor.


E se quer fazer essa muito ansiada e eternamente adiada fusão com as artes plásticas, onde está a arte abstracta ? Onde, o expressionismo ? E as colagens dadaístas ? E os contributos essenciais do surrealismo, incluindo a mítica mas desvalorizada animação Destino de Dalí e Disney; onde está o mea culpa do sistema - tanto da BD como do Cinema - e onde, finalmente, estão as colaborações que poderiam mudar o paradigma ?


Mesmo Sin City, com um black and white brutal, estava destinado ao cinema, atirou-se de braços abertos a esta transição, era ÓBVIO desde o início. O facto de o próprio Frank Miller passar à realização no último filme demonstra esse grande amor, que esteve lá desde sempre.


Chega-se a uma conclusão triste, desanimadora, cruel: os desenhadores de BD estão tão acostumados à representação realista, que julgam que nada há para além dela !


Neste contexto, um Roman Muradov, com o seu estilo altamente estilizado e fora da box, em nada veio alterar a situação – é um ilustrador genial numa multidão de desenhadores competentes de personagens, uma verdadeira fábrica que produz produtos comerciais em série.


O verdadeiro problema de um desenhador de talento hoje em dia não é a falta de qualidade da sua arte:


O seu verdadeiro problema é que ela é isso: ARTE.


E, num mundo inundado de mediania visual – BD incluidíssima – o destaque que obtém, ao invés de positivo, marca-o para sempre:


Na mente e na alma daqueles que já abraçaram um sistema que conhecem de cor e que sabem como funciona.


E, na arte como aparentemente em tudo, a previsibilidade é um valor em si mesmo.


Nona Arte – RIP.

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