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  • Francisco Capelo

As novas regras da arte



Hoje em dia existem muitos artistas que se dedicam a ensinar. Eu próprio o faço, e com sincero orgulho. Mas ensinam… apenas uma técnica: a sua. Se pintam em óleo sobre tela, ensinam a pintar em óleo sobre tela. Se desenham retratos com carvão, vão ensinar a desenhar retratos feitos com carvão em papel canson.


Eu não tenho, em princípio, nada contra o facto de cada artista ensinar aquilo que sabe fazer, é até uma boa ideia, para evitar cair em generalizações vagas que os alunos topam à distância.


Agora, há toda uma série de conceitos que se perdem, perante uma atitude aparentemente tão séria e correcta - mas que se revelará no entanto tão errada, limitada e até algo anti- pedagógica num futuro bem próximo.



Eu passo a explicar, em 5 pontos que merecem, parece-me, uma reflexão atenta:



1. Versão bom samaritano: “Eu acho que isto é o melhor para o aluno


Nem por isso. O artista- professor está, não a pensar no melhor para o aluno, mas no melhor para si mesmo. E o que é o melhor para si próprio ? – Ter mais alunos.


Perante um artista iniciante, nada mais fácil: promessas de grande evolução criam a ilusão necessária para o aluno optar por aquele professor – e não outro.


É duro de ouvir, mas infelizmente acontece bastante. Será mesmo que um professor de arte, ao sentir a vocação mais abstracta de alguém e sendo ele um pintor realista, vai recomendar um outro professor ? Ou vice- versa ?


Já aconteceu com todos, e eu mesmo não serei aquele que vai atirar a primeira pedra. Quem sabe se eu mesmo nunca padeci do mesmo mal ?



2. Versão Da Vinci tardio: “O desenho é a base de tudo


Os hiper- realistas normalmente dizem isto: “- Aqui vai aprender a desenhar a Sério”.


Ora, eu pergunto apenas: e que tipo tão especial de desenho é considerado esse tal de desenho a Sério ??


Sejamos honestos: normalmente não se trata de desenho a sério, e sim de uma nova roupagem do classicismo, da tradição realista no seu pior, pois tenta-se impor uma perspectiva retrógrada e já ultrapassada de entender a arte a um aluno ainda com pouca noção de história das artes visuais.


Algo como o desenho de Klee e Miró e Escher e outros que tais nem entram no vocabulário destes professores. E é pena - sobretudo para o aluno, que não evolui.



3. Versão pintor adulto: “A arte é representação: tudo o resto não existe


Errado. Erradíssimo. Aliás, no início do século XX o extremo realismo da fotografia e da imagem em movimento (cinema) causou inclusivamente a tão necessária revolução artística, que já se impunha há muito tempo e que quebrou definitivamente o tabu da representação da realidade. Os artistas divergiram completamente do senso comum e do que se esperava deles.


Logo, um professor de desenho e pintura que ensine que arte é somente representação, não só ensina pouco, como o pouco que ensina é profundamente falso e enganador e tem o poder nefasto de destruir pela base uma vocação autêntica que lhe apareça à frente.


Um conselho que é no fundo um autêntico beijo de Judas..



4. Versão novo- rico: “Há que trabalhar com os melhores materiais


Eu estou certo de que em Faculdades de Belas Artes espalhadas um pouco por todo o mundo decerto existem professores que ensinam isto – poderei estar enganado (mas é pouco provável que esteja): ter a melhor tela, comprar as melhores tintas e etc e tal.


Bom. Segundo esta peregrina ideia, movimentos artísticos inteiros – como por exemplo o expressionismo abstracto ou a arte pobre (para só citar os mais óbvios) seriam arrasados até às suas fundações visuais. Ainda bem que isto nunca acontecerá porque quem está enganado aqui é este professor - e não os artistas que continuam a fazer arte de enorme impacto e qualidade com pedaços de madeira ou tecidos cortados ou metais torcidos ou pregos ou arame. Siga para bingo.



5. Versão arte- é- bela- e- pronto: “A beleza da arte renascentista nunca será suplantada


Pois. O problema estará sem dúvida aqui – neste pré- conceito, que deturpa todos os valiosos contributos que surgiram depois. Mesmo o recente amor ao Impressionismo enforma do mesmo mal: a natureza ainda é perceptível, e após uma época de gozação pública, este movimento foi finalmente aceite e é agora um dos últimos cânones aceites de uma forma consensual da arte ocidental.



Deixem-me agora falar-vos de algumas ideias de composição visual que estes artistas/ professores ignoram por completo:


. A regra das diagonais de Joan Miró


. A regra do desequilíbrio estrutural em Antoni Tàpies


. A regra dos mosaicos de Vieira da Silva


. A regra do desenho infantil em Dubuffet


. A regra do mix explosivo de texto e imagem em Jean- Michel Basquiat


. A regra das perspectivas profundas e aterradoras de Anselm Kiefer


. A regra das instalações inovadoras de Joseph Beuys e Louise Bourgeois


. A regra dos ready- made de Marcel Duchamp



Há tantas, tantas e tantas novas regras que nem sei por onde começar !! Regras que alteraram totalmente a maneira como se organizam os elementos visuais dentro de pinturas e desenhos e esculturas..


Portanto, não me venham com preconceitos mascarados de ciência absoluta. Porque, em arte, isso sempre significa uma e uma única coisa:


C-L-A-S-S-I-C-I-S-M-O !


R-E-A-L-I-S-M-O !


Cópia da realidade. Pura e dura.



Peço uma única coisa:


Por favor não contem meias verdades aos alunos iniciantes. Se alguém tem uma vocação clara para algo que não dominam, recomendem um professor que domina essa área criativa.


É simples de entender, creio.


(Isto sim, é ser sério)


A Sério !!

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